1. - 30 Cold Days.

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1º de Novembro, outono.
Newcastle upon Tyne. 


Através de todos os segredos que Ella já viu, Novembro lhe deixava mais intrigada. As cores, o clima, exatamente tudo naquele mês lhe interessava. Principalmente o popular ditado de certa ‘‘chuva da esperança’’, onde, lhe disseram uma vez, as pessoas se ajuntavam em um parque conhecido para banhar-se com folhas secas do outono e água, renovando seus pedidos e agradecendo milagres, – certamente, a igreja não concordava com a ideia. – era uma preparação para o fim do ano.

Mas, sem sombra de dúvidas, Ella jamais participaria do evento. A diretoria do Cold Days não permitia que qualquer residente do orfanato saísse de lá, apenas para ir à escola ou festas em outras afiliações do lugar.  A ruiva já estava acostumada com as regras do local, vive ali há onze anos e alguns dias. Todavia, Conolly estaria mentindo se dissesse que nunca teve vontade de explorar cada canto de Newcastle, conhecer novas pessoas e culturas diferentes. 

 — Ella, meu amor... Vá se alimentar. — Ivory, inspetora do orfanato, disse, colocando algumas mechas ruivas da garota por trás de sua orelha. 
— Eu tenho que me alimentar, não é? — Ivory assentiu. — Certo, só preciso saber para que lado fica a cozinha.
— No corredor, a primeira porta a sua esquerda, Ella. 

Conolly sorriu como forma de agradecimento e tomou caminho até a ampla cozinha do lugar, ela nunca entendeu o porquê de ter um horário diferenciado de outras pessoas para comer, mas não se permitia a perguntar. Pelo menos ninguém lhe incomodava com perguntas estúpidas. 

A garota prendeu os cabelos em um rabo de cavalo antes de adentrar no local, mais regras do Cold Days. Lá, avistou Shannon sentada a frente da enorme mesa dali, lendo uma revista.

— Shann, me disseram que estou com fome. — Ella sentou-se em uma mesa a frente da figura, passando as mãos na barriga. — O que você fez para mim? 
— Rodelas de batata, você irá gostar. — A mulher se permitiu sorrir, em seguida, levantou-se e caminhou até o fogão, pegando uma média travessa da comida. 

Levou as rodelas até a mesa, depois as serviu num prato e pediu para que Conolly comesse todo o alimento, a ruiva concordou. Shannon continuou lendo para distrair-se, estava ansiosa para o que aconteceria a seguir. 

— Shannon, eu quero parar de comer. Está quente e me sinto cheia, desculpe-me. 
— Tudo bem, meu amor. — largou a revista na mesa. — Podemos conversar seriamente? 
— Uh, eu fiz algo de errado?
— Você nunca faz, por isso lhe trouxe um presente.

O coração de Ella disparou ao ouvir aquilo, um presente? Não tinha amigos, muito menos família, jamais ganhou um presente antes, – com exceção dos ursos de pelúcia de Ivory que ganhava em cada aniversário – a ruiva quase pulou na mulher, queria saber qual era a surpresa que lhe esperava. 

— Antes de tudo, não conte para as outras pessoas que irei lhe dar isto, não quero tumultos em minha vida, certo? 
— Eu faço tudo o que você quiser e mandar, apenas me dê o presente.
— Acalme-se. — Conolly suspirou. — Vou pegá-lo, não saia daqui. 

Ella jamais sairia de lá. Shannon caminhou até o banheiro de funcionários e a garota cruzou os dedos para que não fosse mais um urso de pelúcia, ela já tinha 16 anos, se achava adulta o suficiente para que ganhasse maquiagens, roupas e sapatos. 

Shann retirou o embrulho rosa da bolsa e voltou para a cozinha, percebendo que Conolly não parava de bater os pés e sorrir para o nada, seu coração se apertava facilmente quando encontrava a garota assim.

— Espero que você goste. — entregou o embrulho para Ella, a ruiva o desfez em pouco tempo, logo depois apreciando a caixa de um celular. — Usava-o desde o ano passado, mas resolvi trocar o aparelho e o guardei para você. Tem tudo que jovens como você precisam para se comunicar e brincar, além de poucos aplicativos que vão te entreter. 
— Deus, obrigada Shann! — Ella levantou-se desesperadamente e correu até seu abraço, com a caixa em mãos. — Você é a melhor pessoa do mundo.
— Por nada, agora aproveite o celular. Apenas lembre-se de não empresta-lo para ninguém, muito menos deixar que outras pessoas saibam dele. 
— Não deixarei, jamais. — soltou-se da mulher. — Posso ir para o meu quarto? 

Shannon assentiu e Conolly correu até seu quarto, estava tão feliz que mal podia ver os degraus da escada. Ela não dividia o canto com mais ninguém, também, sentia-se muito especial por não ter que dividir suas coisas e ter seus segredos descobertos. Finalmente, chegou ao lugar, trancou-se lá dentro e rapidamente pôs o celular para carregar. 

O modelo era pouco moderno, com teclado virtual. Como a cozinheira lhe disse, o aparelho continha poucos aplicativos, todavia, em pouco tempo, Ella conseguiu divertir-se com um jogo de cortar frutas. Seus dedos mexiam freneticamente na tela do celular. 

— Eu preciso por fotos, está feio com essas paisagens de arvores.  — Conolly pensou alto, saiu do jogo e direcionou o dedo até a câmera, tirou fotos de si e de seus ursos e atualizou o que achou necessário. 

Passaram-se algumas horas e Ella continuou trancada no quarto, explorando a novidade. Aquecida por edredons e meias, cruzou seu olhar com o ícone de um aplicativo verde, sem pestanejar clicou no botão. 

E, oh, havia um contato ali, denominado por ‘‘Louis T.’’ Conolly, de fato, era curiosa, e o atributo lhe fez clicar para ver o perfil do homem. 

— Ele é tão fofo. — abraçou o celular. — Será o filho de Shann? Não, ela não tem filhos. — observou a foto novamente. — Devo pergunta-la quem é ele?

Ella tomou a iniciativa de sair do quarto, mas o frio lhe impediu de sair da cama. Louis T. era realmente fofo, porém bonito. Tinha um belo corpo e um belo sorriso, Ella Conolly comparou-lhe com um anjo de algum livro que leu por aí. 

— Ele parece ser legal, precisamos conversar. — sorriu, em seguida, saiu da foto. Mudou o nome de seu contato, deixando apenas ‘‘Louis’’ e símbolos ao redor. 

Pacientemente, esperou-lhe ficar online. Foram insuportáveis e longos minutos de espera, Ella estava quase dormindo enquanto observava estrelas iluminarem a cidade, e nada de Louis aparecer. 

— Talvez, Louis possa entrar amanhã. E então conversaremos. 

Mas ela estava errada. Como mágica, ele ficou online após ela completar a frase, Conolly se apressou e a única coisa que conseguiu mandar-lhe foi um símbolo. 

" Quem é você? "

Ella não sabia mais como controlar suas pulsações, poderia fazer um novo amigo e aquilo deixava-lhe completamente feliz e ansiosa. 

" Você é tão fofo, Louis "
" Como você sabe meu nome? "

A ruiva riu, a pergunta é tão óbvia. No entanto, antes de responder, cobriu-se com mais um edredom, uma grande nuvem gélida chegara à Inglaterra e ela, como todas as outras pessoas, teria de se cuidar. Pegou o celular e visualizou duas novas mensagens do garoto. 

" Como conseguiu meu número? "
" Estou ficando irritado "

Ella sentiu o corpo ficar mole, ela achava aquilo tão fofo e engraçado que mal teve forças para conseguir responde-lo. 

" Oh, isso é realmente divertido "

Enviou um símbolo carinhoso e guardou o celular debaixo de seu travesseiro. A situação foi engraçada e, com certeza, Ella a repetiria amanhã. Talvez, irritar aquele desconhecido não lhe parecia ser uma perca de tempo. 


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oi gebte. 


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